Armando
Napoleão Fernandes
Texto elaborado por: Carlos Filipe Gonçalves - Jornalista
Armando
Napoleão Rodrigues Fernandes nasceu na Ilha Brava, Cabo Verde em 1
de Julho de 1889. Investigador da língua cabo-verdiana é o autor do primeiro
dicionário crioulo/português, com o título: «O Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde» obra terminada em 1943, mas que
só foi publicada postumamente em 1991. Esse trabalho é considerado, pioneiro na
promoção e valorização da língua cabo-verdiana. Em homenagem, o seu nome foi
dado à Escola Secundaria situada em Cruz Grande/Achada Falcão, Concelho de
Santa Catarina, inaugurada em 2008. Condecorado pelo Presidente da Republica
com a Medalha de Mérito em 5 de Julho de 2000.
Biografia
Filho
de João Bento Rodrigues d’Abreu Fernandes (Nhô Filili) funcionário aduaneiro e
mãe guineense Margarida Gomes Fernandes. O pai desempenhou as funções de
Director das Alfandegas e esteve destacado em diversas ilhas e na então Guiné Portuguesa.
Na
infância e juventude acompanhou o pai pelas várias ilhas para onde era
transferido em serviço. Teve assim contacto com as diversas variantes do
crioulo que se falava nas diversas ilhas, nascendo assim o interesse pelo
estudo do que para ele na época já era uma língua, mas não reconhecida como
tal. Ao longo de mais de 40 anos, recolheu, compilou e ordenou milhares de
palavras, o seu significado, origem etc. Nas noites frias na sua casa na
propriedade que chamava «Galo Canta» no interior do Concelho de Santa Catarina,
onde viveu a maior parte da sua vida, foi trabalhando ao longo dos anos na obra
da sua vida o Dicionário do Crioulo e na «Gramática do Crioulo» obra
indispensável ao suporte da primeira. Infelizmente esta segunda empreitada
ficou inacabada.
Nos
princípios dos anos 1920, casou-se com Alice Lopes da Silva Fernandes (falecida
em 1935) originaria de uma família de funcionários públicos e proprietários da
Ilha de S. Nicolau, era sobrinha do poeta José Lopes da Silva, prima dos
escritores Baltazar Lopes da Silva e António Aurélio da Silva Gonçalves. Depois
da morte da primeira esposa, voltou a casar por duas vezes. Teve uma imensa
prole, mais de 30 filhos! Destacam-se: Ivone Aida Lopes Rodrigues Fernandes Ramos e Orlanda Amarílis Lopes Rodrigues Fernandes Ferreira ambas escritoras e
Armando Nelson Fernandes, compositor. Destaque ainda para os netos: Carlos Filipe Fernandes Gonçalves, investigador musical, Abraão Fernandes Vicente, poeta, escritor e artista plástico, e Jacob Fernandes Vicente, escritor e investigador em ciências sociais.
Proprietário
e comerciante foi um homem de muitas aptidões, pelo que foi relojoeiro,
fotógrafo, alfaiate… etc. etc. É que viver naquela época, num canto isolado de
uma ilha, com carências de toda a espécie requeria inteligência e saber para
resolver os mais intricados problemas que surgiam no dia-a-dia. Foi também
advogado solicitador, função que desempenhou por vários anos.
Faleceu
no Hospital da Praia, depois de doença prolongada em 19 de Julho de 1969. O seu
corpo foi depositado no jazigo da família, no cemitério da cidade da Praia.
A obra, o pioneirismo e actualidade
A
filha Ivone Aida Lopes Rodrigues Fernandes (Ivone Ramos) num testemunho na
Revista África (1) refere que o pai um dia lhe disse que “desde moço começou a trabalhar na recolha para um dicionário de
crioulo e trazia sempre consigo pedaços de papel e lápis. Sempre que ouvia uma
palavra diferente anotava-a.”
Ao
longo de anos fez pesquisa sobre a língua cabo-verdiana, utilizou um
sofisticado sistema de ficheiro, em que cada verbete correspondia a uma palavra
e seu significado. Para tal utilizou um quarto de folha de papel almaço (A4)
para cada verbete, o todo guardado por ordem alfabética, em caixas de papelão.
Após a sua morte, os herdeiros não sabendo o que significavam aquelas caixas
cheias de pedaços de papel, não lhes deram o devido valor, pelo que se perdeu a
maior parte deste espólio, que foi a base para escrita de uma das obras mais
completas sobre o crioulo de Cabo Verde, ainda no período colonial.
«O
Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde»
para além de um dicionário com definição/descrição em português das palavras
usadas no falar do dia-a-dia, é uma importante fonte cultural, pois contém a
descrição de quase todas as manifestações culturais cabo-verdianas (musica,
tradições, festas, etc.) contém uma recolha de centenas de provérbios e ditos
populares. Para além disso, contém palavras que foram caindo em desuso ao longo
dos anos…
Manuel Ferreira, no ensaio “A propósito do
pioneirismo de linguístico de Armando Napoleão Fernandes” publicado como
introdução da obra «O Dialecto
Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde» refere: “ (…) soubemos do «Dialecto crioulo» aí por
volta de 1943 (…). Posteriormente em correspondência que travamos, tivemos
ocasião de falar no «Dicionário» e, obviamente a sua eventual publicação. E
quando lhe perguntamos (…) se não o fazia acompanhado de um prefácio de
Baltasar Lopes, respondeu-nos que sempre fora sua intenção faze-lo acompanhado
de um prefácio de José Lopes.” Refere neste ponto Manuel Ferreira que “A sua admiração por José Lopes vinha da
aura que este desfrutava na sociedade cabo-verdiana e ainda porque José Lopes
tinha sido seu professor de instrução primária, na Ilha de Santo Antão”.
Vicissitudes
várias impediram a publicação da obra naquela época tendo ficado esquecido por
décadas o «original» manuscrito de 1013 páginas (com cerca de 5 mil entradas)
em papel almaço (30cmX12cm) organizado em dois volumes devidamente encadernados
pelas suas próprias mãos. Paralelamente ia escrevendo uma Gramática do Crioulo,
obra que ficou inacabada…
Após
a sua morte, continuaram as vicissitudes que foram impedindo a publicação d’ «O
Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde»,
mesmo depois da Independência Nacional, até que finalmente em 1991 a filha
Ivone Ramos conseguiu um financiamento.
Manuel
Ferreira na introdução à referida obra refere “ (…) tantos foram os que amaldiçoaram o crioulo, por excesso de
etnocentrismo, por incapacidade científica, por uma série de coisas, e até,
vamos lá, próprias de uma época que temia a adulteração das línguas, e às
línguas queria dar um estatuto de soberania alargada. E daí – que sanha contra
o crioulo de Cabo Verde! ” Neste ponto aquele autor refere uma extensa
lista de nomes e citações de “Muitos que
se distinguiram nessa cruzada da pirologia verbal”.
Por
outro lado, Manuel Ferreira, faz um exercício, para demonstrar o «pioneirismo»
de Armando Napoleão Fernandes no estudo do crioulo de Cabo Verde. A dado passo
chama atenção para o seguinte: “ (…) se
consultarmos a obra de John E. Reinecke (2) e sua equipa de investigadores (…)
encontramos registos de crioulos de todo o mundo (…). Naturalmente que Cabo
Verde nessa obra cabe um lugar de realce (…). E foi exactamente aí que fomos
encontrar o nome de Armando Napoleão como autor de um original sobre o crioulo
de Cabo Verde” É importante notar que esta referência foi feita muito antes
da obra de Armando Napoleão Fernandes ter sido publicada. Como se viu
anteriormente a obra já estava pronta em 1943 e nos anos seguintes, a
expectativa da sua publicação era grande. Daí a conclusão de Manuel Ferreira: “Eis porque aquele «Dicionário» se tornou
num objecto que entrou no domínio de fábula. Existe? Não Existe? Realidade ou
ficção? Meia dúzia o teriam visto, quantos o teriam foleado? Mas nele se
continuava a falar e até a citar publicamente, uma espécie de rumor que
mantinha viva a presunção.” E até hoje depois da publicação, a obra
continua no «imaginário» continuando a gozar de uma dimensão «mítica». A edição
de 500 exemplares rapidamente esgotou e a consulta da obra pelo grande público
tornou-se difícil. Aguarda-se uma segunda edição.
E
no meio de tudo isto a questão da grafia, que ontem como hoje tem sido uma
preocupação. Digamos até que tem sido o pomo da discórdia. Manuel Ferreira
refere que nos anos 1930 quando da publicação de «Mornas Cantigas Crioulas de
Eugénio Tavares» “a questão da grafia do
crioulo andou pelos jornais de Cabo Verde. Cremos ter sido por esta altura (…)
que Napoleão Fernandes escreveu o prefácio para sua gramática do crioulo.”
Note-se que o manuscrito «gramática do crioulo» existe, mas faltam muitas
páginas, pelo que até agora não foi possível a sua publicação. No prefácio à
«gramática do crioulo» encontra-se a explicação não só para este trabalho, mas
também as linhas de força que orientaram na feitura do «dicionário». Escreveu
pois Armando Napoleão Fernandes o seguinte: “
(…) ao empreender um trabalho tão árduo e ímprobo, de tamanha monta, só tinha
em vista, em face do estudo aturado e atento, fazer uma gramática em que
demonstrasse que a origem do crioulo de Cabo Verde, tido como um dialecto
bárbaro e fugindo a qualquer codificação era derivado do português genuíno,
aprendido dos primitivos colonos, dos senhores, desde a colonização dessa ilhas
(…) encontrando-se ainda termos arcaicos que acompanharam a evolução da língua
misturada já de termos ou palavras de origem africana – da vizinha Guiné –, mas
de significação precisas que embora derivados uns dos outros, não têm
equivalentes (como se expõe no Léxico) e que por isso prevalecem ou subsistem a
par dos sinónimos da língua portuguesa e que não dizem tanto.” Finalmente
Manuel Ferreira aponta a questão da fonologia que vai ocupar “muito da sua
atenção, atento como estava às características do falar da ilha de Santiago e
na convicção de que «cada Ilha» tem «o seu sotaque, e não dialecto»
destacando-se a diferença entre os dois grupos, o de Sotavento e o de
Barlavento (…) ”
Pelo
seu pioneirismo esta obra «O Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do
Arquipélago de Cabo Verde» tornou-se numa referência obrigatória na maior parte
dos estudos realizados posteriormente por diversos investigadores, nomeadamente
Jürgen Lang Gunter Narr Verlag (3), Martina Bruser e André dos Reis Santos (4)
ou Ana M. Carvalho (5).
Obras
·
«O Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélagode Cabo Verde» Ed. Ivone Ramos, Mindelo, 1991.
·
Gramatica do Crioulo de Cabo Verde (obra incompleta ainda não
publicada).
Referências
1. Revista “África – Literatura, Arte e Cultura” fundada e dirigida
pelo escritor Manuel Ferreira a partir de meados dos anos 1970.
2.
Reinecke, John E[rnest]. 1937. Marginal languages: a
sociological survey of the creole languages and trade jargons. Tese de doutoramento (Ph.D) não publicada, Yale University;
Reinecke, John E[rnest] et al. (eds.). 1975. A Bibliography of Pidgin and Creole Languages.
Honolulu:The University of Hawaii Press.
3. “Cabo Verde – Origens da sua sociedade do seu crioulo” - Jürgen
Lang Gunter Narr Verlag, 2006 - 243 páginas – Ref. pág. 40 Secção Bibliografia
4. “Dicionário do Crioulo da Ilha de Santiago (Cabo Verde): com
equivalentes de tradução em Alemão e Português”, Martina Bruser e André dos
Reis Santos – Ref. pág. 9 Secção Fontes de Informação.
5. “Português em Contacto”,
Ana M. Carvalho – Ref. pág. 85 Secção Bibliografia.